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Ciclo de Vida em perspetiva

É já do conhecimento comum o conceito ciclo de vida mas saber o que este realmente comporta e, mais especificamente, o que a Norma NP EN ISO 14001:2015 tentou introduzir de novo nos sistemas de gestão, pode ser um pouco diferente.
Para começar, de referir que ciclo de vida não é nada mais nada menos do que as várias etapas desde o nascimento até à morte, com a conhecida expressão inglesa cradle to grave. Este conceito pode ser aplicado aos seres vivos existentes no planeta ou ser aplicado a bens materiais e serviços.

A ISO 14001:2015 foca-se no ciclo de vida associado aos produtos e serviços de uma determinada organização.

De acordo com aquela norma a definição de ciclo de vida comporta as várias etapas consecutivas e interligadas de um sistema de produto (ou serviço), desde a obtenção de matérias-primas, ou a sua produção a partir de recursos naturais, até ao destino final. Como etapas entenda-se a obtenção de matérias-primas, o design, a produção, o transporte/entrega, a utilização, o tratamento no fim-de-vida e o destino final.
Esta designação foi baseada na Norma ISO 14044:2006, tendo sido acrescentado o termo serviço àquela definição. Isto é, enquanto que o conceito de ciclo de vida dado pela ISO 14044 é focado no fabrico de produtos, existindo as chamadas avaliações do ciclo de vida de um produto para permitir a comparação do impacte ambiental provocado por produtos idênticos com origens e processos produtivos diferentes, este novo conceito, introduzido pela ISO 14001:2015 vem, além de englobar o serviço prestado por uma organização, contemplar num sistema de gestão ambiental a reflexão das várias etapas do ciclo de vida dos produtos e serviços, em vez de uma avaliação exaustiva do ciclo de vida para cada produto fabricado. O foco não será saber efetivamente o que é produzido, como é produzido e que impactes ambientais ocorrem e em que quantidades, mas sim, o tipo de atividade, produtos e serviços de uma organização que possam impactar no ambiente ao nível das diferentes etapas do ciclo de vida.
Pode parecer complicado mas não é.

O principal objetivo ao se considerar a perspetiva de ciclo de vida no sistema de gestão ambiental de uma organização, é o de prevenir a transferência (in)voluntária de impactes ambientais de umas etapas para outras do ciclo de vida dos produtos ou serviços, através do controlo ou influência que essa organização pode exercer nas várias etapas. E aqui vemos associado o contexto organizacional, na medida em que diferentes partes interessadas deverão ser analisadas pela organização para determinar a relevância de cada uma no sistema de gestão ambiental.

De notar que, esta associação entre etapas do ciclo de vida e controlo/influência sobre as partes interessadas, é fundamental para garantir a coerência e funcionalidade de um sistema de gestão ambiental.
A grande questão será, mas como isto poderá ser feito? Ou, o que deve ser tido em conta quando é considerada a perspetiva de ciclo de vida no sistema de gestão ambiental de uma organização?
Podem ser elaborados os esquemas, desenhos, teorias e metodologias que a organização queira e do modo mais complexo que possa existir mas o facto é que não é isso que a Norma pretende nem em nenhum requisito isso é exigido.

Não esquecer que, em primeiro lugar, os impactes ambientais decorrentes de qualquer atividade, produto ou serviço associados às várias etapas do ciclo de vida, são considerados e trazidos para o sistema de gestão, através do levantamento dos aspetos ambientais. E, conforme requerido pela ISO 14001:2015, os vários aspetos e impactes ambientais identificados para uma determinada organização, devem ser aqueles que são gerados em cada etapa do ciclo de vida.
Posteriormente, a organização deve equacionar quais desses aspetos ambientais são passíveis de controlo ou de influência da sua parte e estabelecer metodologias e procedimentos para agir em conformidade com o respetivo controlo ou influência decididos. No entanto, poderá acontecer o caso de que determinada etapa do ciclo de vida não faça sentido de ser considerada no sistema de gestão ambiental de um organização porque, ou a etapa não ocorre uma vez que não são gerados aspetos ambientais nessa mesma etapa devido ao tipo de atividade, produto ou serviço envolvidos ou, porque a parte interessada que possa intervir ou ser responsável por determinada etapa não ser passível de influência por parte da organização ou, até mesmo, ser pouco relevante em comparação com outras etapas do clico de vida e partes interessadas associadas.

Portanto, cada etapa do ciclo de vida deve ser devidamente refletida pela organização, de modo a serem identificados os aspetos e impactes ambientais que possam ser relevantes num sistema de gestão e, para os quais, a organização deva estabelecer controlo ou influência sobre os mesmos.
Após esta análise a organização está apta a definir o âmbito do seu sistema de gestão ambiental porque já conhece as etapas do ciclo de vida que requerem controlo ou influência dos aspetos e impactes ambientais associados, bem como, as correspondentes partes interessadas envolvidas.
Boas perspetivas!

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