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Relatórios de Sustentabilidade: Inevitabilidade indesejada ou Oportunidade bem-vinda?

Hoje, mais do que nunca, a definição da estratégia de desenvolvimento empresarial deve assentar numa sólida estrutura de informação e conhecimento organizacional que permita proteger e desenvolver continuamente os ativos de negócio e assegurar à empresa perspetivas de futuro sustentadas.
Com a crescente visibilidade dos desafios de Sustentabilidade com que nos confrontamos coletivamente, o entendimento das empresas enquanto entidades relativamente fechadas sobre si próprias tem vindo a dar lugar a um entendimento mais amplo e integrado sobre as suas responsabilidades e os seus contributos na resposta às expectativas societais sobre o(s) modelo(s) de desenvolvimento sustentável que urge encontrar e construir.
Entre outros sinais que refletem esta notável, e cada vez mais visível, mudança de entendimento sobre o papel e as responsabilidades do setor empresarial, merece destaque a publicação, pela ONU, da Agenda 2030 e dos respetivos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), em Setembro de 2015, e, noutro plano, a Diretiva 2014/95/EU relativa ao Relato de Informação Não-Financeira pelas empresas, entretanto transposta para a ordem jurídica interna pelo Decreto-Lei 89/2017 de 28 de Julho.
Com as devidas diferenças, ambas ilustram bem a importância do contributo que se espera que o sector empresarial apresente, hoje e no futuro, para a construção de novos e mais sustentáveis modelos de desenvolvimento económico-social e ambiental. Um contributo que, importa salientar, não comprometa a ambição da missão produtiva e finalidade de negócio de cada empresa mas, pelo contrário, que pode e deve servir como mote gerador de novas oportunidades de negócio e de geração de emprego.
Como integrar a dimensão da Sustentabilidade de forma transversal na gestão de uma empresa e como colocar os objetivos de Desenvolvimento Sustentável ao serviço do desenvolvimento de novas soluções empresariais parece assim ser a grande questão-desafio que se coloca à gestão estratégica da generalidade das indústrias.

Se a pertinência deste novo entendimento pode ser mais evidente quando se pensa em empresas de grande dimensão que estabelecem uma relação direta com o consumidor final, tal não significa que o desafio (e as oportunidades) não se coloque igualmente às PME – posicionem-se estas junto ao consumidor final ou no ‘interior’ de fileiras produtivas menos visíveis e menos ‘responsabilizáveis’ pelo consumidor no momento das suas opções de consumo.
Como se sabe, cada vez mais as empresas de grande dimensão transferem para a sua cadeia de fornecedores e parceiros a gestão dos riscos e oportunidades associadas à consideração das necessidades e das expectativas dos vários agentes e partes interessadas (stakeholders) implicados nos diversos processos produtivos que se desenvolvem a montante.
É neste contexto que, mesmo para as PME menos expostas ao escrutínio do consumidor final, importa trabalhar o entendimento da empresa como uma organização que, na realização da sua missão produtiva, se relaciona com variados agentes dos ecossistemas económico-produtivos, sociais e ambientais em que se insere, construindo e gerindo um equilíbrio dinâmico entre as necessidades e expectativas destes agentes e as suas próprias.

Numa recente tertúlia informal com um pequeno conjunto de empresas de base industrial discutia-se sobre os (ainda) ‘emergentes’ Relatórios de Sustentabilidade e o valor acrescentado que deles se retira para empresa.
Contrariamente às expetativas mais otimistas, uma ideia que parece ainda dominar é a de que estes relatórios servem fundamentalmente para cumprir requisitos de clientes e que, uma vez cumpridos esses requisitos, os relatórios tendem a ser rapidamente esquecidos … pelo menos até ao ano seguinte, quando as campainhas da ‘compliance’ voltam a tocar e se torna necessário atualizar a informação anual sobre o desempenho da empresa.
Numa posição de charneira entre as PME que, na condição de fornecedores de grandes empresas, cada vez mais se vêm ‘compulsoriamente convidadas’ a produzir estes relatórios, e as organizações que promovem este tipo relato corporativo, somos levados a crer que a dificuldade em reconhecer valor acrescentado neste tipo de relato corporativo se prende com um desequilíbrio entre a desvalorização do valor acrescentado que o próprio processo de produção do relatório pode gerar (justificada pela falta de tempo e outros recursos) e pela sobrevalorização do resultado final (sem que importe tanto o como se chegou a ele).
Trata-se de um desequilíbrio compreensível dada a escassez de recursos com que muitas PME se confrontam e os exigentes exercícios de gestão a que essa escassez obriga, mas não deixa por isso de apresentar custos para empresa. Custos cuja transformação em proveitos parece depender essencialmente de uma alteração de ‘postura organizacional’.
Seria pois importante entender o ‘Relatório de Sustentabilidade’ não tanto como uma obrigação, externamente imposta, ‘inútil’ mas incontornável, onde a preocupação que acaba por dominar é a de ‘comunicar a empresa tal como era bom que fosse’; mas antes como uma ferramenta para a gestão estratégica cujo valor acrescentado reside não apenas nos seus conteúdos finais, mas também, nos processos que são desencadeados para a sua produção.
De facto, embarcar num processo de relato corporativo do tipo ‘Relatório de Sustentabilidade’, designadamente segundo o referencial mais comumente usado – GRI (Global Reporting Initiative) Standards – apresenta um contexto ideal para desenvolver um trabalho estruturado em que a empresa desencadeia processos que, com elevada probabilidade, irão gerar novas oportunidades para validar ou redefinir estratégias.
Com base em princípios e metodologias de relato externamente validados e alinhados com preocupações societais que cada vez mais recaem sobre as empresas, a empresa tem aqui a oportunidade de implementar e manter práticas anuais de revisão e contínua qualificação da sua estratégia de crescimento e respetivas iniciativas para gerir a mudança, ir de encontro às expectativas das suas Partes Interessadas relevantes, e trabalhar aspetos de competitividade capitalizados no alinhamento com objetivos de Desenvolvimento Sustentável partilhados com a envolvente em que se insere.

jorgeassis